Psicoterapia online: o que muda quando o consultório vira uma tela

Nos últimos anos, fazer terapia pelo computador ou pelo celular deixou de ser exceção. Para muita gente, tornou-se a Psicoterapia a forma mais natural de cuidar da saúde mental. A comodidade é evidente: não é preciso enfrentar trânsito. Encaixar a sessão entre compromissos fica mais fácil. Cidades sem oferta de profissionais especializados deixam de ser obstáculo. Porém, essa mudança de formato levanta perguntas além da praticidade. É possível construir uma relação de confiança através de uma câmera? Além disso, a pesquisa científica, não apenas a opinião de quem já experimentou, tem a dizer sobre isso. Entender esse fenômeno exige ir além de funcionar ou não funcionar. Observar suas nuances requer mais cuidado.

Psicoterapia online não é apenas “conversa por vídeo”

Um equívoco comum é tratar a psicoterapia online como se fosse uma categoria única e homogênea.

Na prática, existem diferenças importantes entre modalidades que costumam ser confundidas.

Há intervenções baseadas em programas estruturados de computador, que o próprio usuário percorre sozinho.

Muitas vezes, é feito sem qualquer contato com um profissional.

Há recursos digitais usados como complemento de um tratamento presencial.

Isso inclui troca de mensagens entre sessões.

Há a prática terapêutica propriamente dita, conduzida por um psicólogo, com encontros combinados e processo terapêutico contínuo.

É apenas mediada pela internet em vez do encontro físico.

Chamar todas essas experiências pelo mesmo nome cria confusão e alimenta expectativas equivocadas sobre Psicoterapia.

Essa distinção importa, pois a evidência científica disponível varia bastante conforme o tipo de intervenção avaliada.

Generalizar os resultados de um formato para outro seria um erro conceitual.

O que a pesquisa efetivamente mostra sobre eficácia

Quando se pergunta se a psicoterapia online “funciona”, a resposta mais honesta é: depende do quadro clínico, da abordagem utilizada e de como o tratamento é conduzido. Um estudo (1) que reuniu e analisou dezesseis pesquisas sobre tratamentos psicoterápicos mediados pela internet encontrou indícios de eficácia para diferentes quadros, com destaque para ansiedade e depressão, sendo a terapia cognitivo-comportamental a abordagem mais investigada nesse contexto. Um dado relevante dessa mesma investigação é que as intervenções conduzidas com o acompanhamento de um profissional de saúde mental mostraram-se superiores àquelas puramente autoguiadas, sem qualquer suporte humano. Isso sugere que não é a tecnologia em si que produz o efeito terapêutico, mas a qualidade da relação e da condução clínica que ocorre através dela. Ainda assim, o próprio estudo (1) chama atenção para uma limitação importante: poucos trabalhos descrevem com clareza a formação e a experiência dos terapeutas envolvidos, o que dificulta saber até que ponto os resultados dependem do formato online ou da competência clínica de quem conduz o processo.

Fonte: pexels.com

Por que a relação terapêutica pode se manter, mesmo à distância

Um dos receios mais frequentes de quem considera a terapia online é que a ausência do encontro físico enfraqueça o vínculo com o terapeuta. É uma preocupação legítima: boa parte da comunicação humana acontece por meio de gestos sutis, postura corporal e nuances que uma tela pode, de fato, atenuar. Curiosamente, porém, os achados reunidos nessa mesma revisão (1) indicam que a aliança terapêutica, ou seja, o vínculo de confiança e colaboração entre paciente e psicólogo, tende a se estabelecer de forma comparável entre os dois formatos. Isso não significa que a experiência seja idêntica, mas sugere que os mecanismos psicológicos que sustentam a confiança em uma relação terapêutica, a sensação de ser ouvido, a consistência do profissional, a percepção de cuidado, não dependem exclusivamente da presença física no mesmo espaço. O que muda é a forma como psicólogo e paciente precisam se adaptar para sustentar essa presença emocional através de uma tela, algo que envolve mais atenção a detalhes de linguagem, silêncios e ritmo da conversa do que seria necessário em uma sala compartilhada.

Sigilo, privacidade e o consultório que perdeu as paredes

Um aspecto da psicoterapia online frequentemente subestimado pelo público é o quanto ele desloca a responsabilidade pelo ambiente terapêutico. No atendimento presencial, o psicólogo organiza o consultório para garantir privacidade e concentração; no atendimento remoto, essa tarefa passa a ser compartilhada com o paciente, que pode estar em casa dividindo espaço com familiares, colegas de moradia ou, simplesmente, sem um cômodo silencioso disponível. Uma pesquisa (2) sobre as implicações éticas da psicoterapia online destaca justamente esse ponto: garantir sigilo e confidencialidade deixa de ser uma responsabilidade só do profissional e passa a depender também das condições do ambiente do próprio paciente, o que nem sempre é possível controlar totalmente. Some-se a isso os riscos relacionados à segurança de dados sensíveis, já que registros de sessões e informações pessoais trafegam e ficam armazenados em dispositivos eletrônicos, sujeitos a falhas técnicas, extravios ou acessos indevidos. Por isso, o consentimento informado, documento que esclarece ao paciente os limites, riscos e características desse tipo de atendimento, ganha um papel ainda mais central do que teria em um processo exclusivamente presencial, funcionando como uma forma de tornar transparente aquilo que, de outro modo, poderia passar despercebido.

Para quem essa modalidade tende a funcionar melhor

Nem toda pessoa ou situação se beneficia igualmente da terapia online. A mesma investigação sobre implicações éticas (2) observa que essa modalidade tende a ser mais viável para quem enfrenta barreiras geográficas, de mobilidade ou financeiras para chegar a um consultório presencial, ampliando o acesso a cuidados que, de outra forma, poderiam não acontecer. Por outro lado, é importante reconhecer os limites dessa generalização: quadros clínicos mais graves, situações de crise aguda, risco à própria vida ou a terceiros, e contextos de violência costumam demandar avaliação presencial ou recursos de intervenção que a distância dificulta. A decisão sobre qual formato é mais adequado não deveria, portanto, ser guiada apenas pela conveniência, mas por uma conversa honesta entre paciente e profissional sobre o que aquele momento específico exige. Um jovem adulto com sintomas leves de ansiedade, morando em uma cidade sem psicólogos especializados na sua demanda, pode se beneficiar enormemente do formato online; já uma pessoa em sofrimento agudo, com risco elevado, provavelmente precisa de uma rede de cuidado mais próxima e imediata do que uma tela permite oferecer com segurança.

Uma escolha que pede mais reflexão do que respostas prontas

A psicoterapia online não é uma versão diminuída da terapia presencial, nem uma solução universal para todas as formas de sofrimento psíquico. É uma modalidade com características próprias, benefícios reais de acesso e conveniência, e também desafios específicos relacionados a vínculo, ambiente e proteção de dados que merecem ser levados a sério, tanto por quem procura ajuda quanto por quem a oferece. A ciência já reúne indícios consistentes de que ela pode ser eficaz para diversos quadros, especialmente quando conduzida por um profissional capacitado, mas também é honesta ao apontar o que ainda não se sabe, sobre treinamento dos terapeutas, sobre situações de maior gravidade, sobre a qualidade do vínculo ao longo do tempo. Talvez a pergunta mais útil não seja “a terapia online funciona?”, mas “ela funciona para esta pessoa, neste momento, nestas condições?”. É nessa pergunta, mais modesta e mais precisa, que reside o verdadeiro cuidado clínico.

Referências Bibliográficas

  1. Feijó, L. P., Fermann, I. L., Andretta, I., & Serralta, F. B. (2021). Indícios de eficácia dos tratamentos psicoterápicos pela internet: revisão sistemática. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 14(spe), 1-25. Acesse aqui
  2. Cruz, R. M., & Labiak, F. P. (2021). Implicações éticas na psicoterapia on-line em tempos de Covid-19. Revista Psicologia e Saúde, 13(3), 203-216. Acesse aqui

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Antônio Lançoni (CRP 12/13.360) e Sabrina Maria Schlindwein (CRP 12/05498). Somos psicólogos clínicos, responsáveis pelo Isto É Psicológico, um site dedicado à divulgação de conteúdos sobre Psicologia, saúde emocional e comportamento.

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