Psicoterapia presencial ou online: a diferença está mesmo na tela?

Desde que o atendimento psicológico por vídeo deixou de ser exceção para se tornar rotina.

Uma pergunta simples continua incomodando quem pensa em começar uma terapia: será que funciona do mesmo jeito quando não há uma sala, um sofá e um encontro físico entre duas pessoas?

A dúvida é legítima.

Conversar por uma tela parece, à primeira vista, uma versão mais pobre de um encontro.

Sempre foi pensado como presença corporal, olhar direto e silêncio compartilhado no mesmo espaço.

Mas o que a experiência clínica e a pesquisa em Psicologia mostram é mais matizado do que essa intuição inicial sugere.

Este texto propõe examinar o que realmente muda e o que permanece quando a psicoterapia migra para o ambiente digital.

Em que medida essa mudança compromete ou não sua eficácia.

O que efetivamente muda quando a terapia acontece à distância

A Psicoterapia online não é um conceito único.

Ela pode acontecer por videochamada, por chat de texto ou por áudio.

Pode ocorrer também por e-mail, de forma síncrona (em tempo real) ou assíncrona (com intervalo entre mensagens).

Essa variedade importa.

Cada formato impõe condições diferentes à conversa terapêutica.

Uma sessão por vídeo preserva boa parte da comunicação não verbal: expressões faciais, tom de voz, ritmo da fala.

Já uma troca por mensagens de texto elimina quase inteiramente esse canal.

Na Psicoterapia presencial, o entorno físico do encontro é mais concreto. Na presença física, terapeuta e paciente compartilham o mesmo espaço, e o profissional percebe sinais corporais mais sutis. Como a postura, o modo de sentar e pequenos gestos vão além do que a câmera capta. Já no atendimento remoto, o paciente fica no seu ambiente, às vezes o quarto, a sala de casa. Isso pode ter efeitos ambivalentes: por um lado, retira o profissional de parte do campo sensorial da sessão. Por outro lado, insere a terapia no contexto real de vida, algo que a clínica tradicional acessa apenas pelo relato.

Por que a relação terapêutica não desmorona à distância

Boa parte do ceticismo em torno da Psicoterapia online parte de uma premissa razoável.

Se a aliança terapêutica depende de proximidade física, a distância deveria enfraquecê-la.

Essa hipótese, no entanto, não se confirmou como se esperava.

Além disso, um estudo (1) revisou pesquisas sobre o tema.

Ele descreveu resultados consistentes de escalas que medem a qualidade da aliança terapêutica, comparando atendimentos online e presenciais.

Não encontrou diferenças relevantes entre as duas modalidades na maior parte dos casos avaliados.

Uma explicação psicológica para isso é que a aliança terapêutica não depende apenas de pistas físicas, mas de um conjunto mais amplo de fatores: a sensação de ser ouvido sem julgamento, a consistência do profissional ao longo do tempo, a clareza dos objetivos combinados e a percepção de que aquele espaço é seguro para falar do que normalmente não se fala em outros contextos. Esses elementos podem permanecer estáveis independentemente do meio de comunicação. Os resultados dessa investigação (1) também apontam certo efeito de desinibição na terapia mediada por tecnologia: sem o peso de estar fisicamente diante de outra pessoa, alguns pacientes relatam sentir-se mais livres para abordar assuntos difíceis logo nas primeiras sessões — um fenômeno que a literatura da área já havia identificado antes mesmo da expansão recente do atendimento remoto.

Isso não significa que a modalidade seja irrelevante para todos os processos psíquicos. Abordagens que trabalham intensamente com o corpo, com a dramatização ou com técnicas que dependem do compartilhamento do espaço físico podem exigir adaptações mais cuidadosas quando transferidas para o formato online, e nem sempre essa adaptação ocorre sem perdas.

Fonte: pexels.com

Quando a modalidade online amplia o acesso — e o que isso revela sobre o cuidado em saúde mental

Um dos argumentos mais consistentes a favor da terapia online não é apenas clínico, mas também social. Pessoas que moram longe de grandes centros urbanos, que têm mobilidade reduzida, que enfrentam jornadas de trabalho rígidas ou que vivem em cidades com poucos profissionais especializados em determinada abordagem encontram, no atendimento remoto, uma via de acesso que antes simplesmente não existia. Uma pesquisa (2) conduzida com centenas de psicólogas e psicólogos brasileiros durante a fase inicial da pandemia identificou justamente esse ponto entre os principais benefícios percebidos: a ampliação da oferta de atendimento psicológico e vantagens de ordem prática e financeira, tanto para quem oferece quanto para quem procura o serviço.

Esse dado tem relevância maior do que parece à primeira leitura. A discussão sobre “qual modalidade é melhor” costuma pressupor que as duas opções estão igualmente disponíveis para todos, o que raramente é verdade. Para uma pessoa que mora em uma cidade pequena sem psicólogos especializados no problema que enfrenta, ou para alguém que só consegue conciliar a terapia com o trabalho por não precisar se deslocar, a pergunta relevante não é “presencial ou online é mais eficaz em abstrato”, mas sim “qual dessas opções é realisticamente viável para mim, e ela é suficientemente boa”. A resposta, na maioria dos quadros clínicos comuns, tem sido afirmativa.

Os desafios que a pesquisa não esconde

Seria impreciso apresentar a terapia online como uma solução sem custos. Além disso, a mesma investigação mencionada anteriormente (2) descreveu dificuldades relatadas pelos profissionais na transição para o atendimento remoto. Inclui insegurança diante de aspectos técnicos, como falhas de conexão. Também envolve domínio insuficiente das ferramentas digitais e preocupações éticas com sigilo e privacidade em ambientes domésticos. Alguns pacientes apresentam resistência inicial ao formato à distância. Esses achados indicam algo importante. Os desafios da terapia online não são apenas técnicos. São também relacionais e éticos, exigindo competências específicas que a formação tradicional em Psicologia nem sempre contempla.

Há ainda uma camada mais sutil, ligada ao próprio ambiente em que a sessão acontece.

Um paciente que faz terapia sentado na cama do próprio quarto pode ter dificuldade em separar psiquicamente o espaço da sessão.

Isso pode dificultar a distinção entre o espaço da sessão e o espaço do descanso.

Além disso, não invalida a modalidade, mas sugere que ela pede um cuidado adicional.

Pensar deliberadamente em como criar, dentro do próprio ambiente doméstico, um mínimo de ritual.

Isso sinaliza psicologicamente «agora é hora de terapia».

Pequenas práticas — reservar um cômodo específico, usar fones de ouvido, evitar a sessão em locais de trabalho — cumprem, de forma improvisada, uma função.

Essa função era oferecida pelo configuração físico tradicional de modo mais natural.

O que ainda não sabemos e por que isso importa

A Psicologia como ciência não trabalha com certezas definitivas, e seria um desserviço ao leitor apresentar a equivalência entre as duas modalidades como um veredito fechado. O próprio estudo (1) que sintetizou décadas de pesquisa sobre o tema fez questão de destacar que a maior parte das investigações concentra-se em terapias de orientação cognitivo-comportamental, o que deixa uma lacuna considerável sobre como outras abordagens: psicanalíticas, sistêmicas, humanistas, se comportam quando adaptadas ao ambiente virtual. Também permanece pouco estudado como a terapia online funciona para quadros clínicos mais graves, como quadros psicóticos agudos, situações de risco imediato ou crises que exigem intervenção presencial rápida, contextos em que a distância física pode representar, sim, uma limitação real e não apenas uma questão de preferência.

Também é preciso resistir à tentação de transformar essa discussão em uma generalização única aplicável a qualquer pessoa. A mesma modalidade de atendimento pode ser profundamente positiva para alguém que valoriza a praticidade e se sente à vontade com tecnologia, e desconfortável para outra pessoa que associa o deslocamento até o consultório a um momento simbólico de cuidado consigo mesma, ou que tem dificuldade de concentração em ambientes digitais. A eficácia de uma terapia não depende só do meio pelo qual ela acontece, mas da forma como esse meio dialoga com a história, as necessidades e as condições concretas de vida de cada pessoa — o que reforça, mais uma vez, por que uma avaliação individual, feita por um profissional, continua sendo insubstituível para decidir o melhor caminho em cada caso.

Uma escolha que também é prática

Diante do que a pesquisa em Psicologia já indica, talvez a pergunta mais produtiva não seja “presencial ou online, qual é superior”, mas “o que cada modalidade oferece, e o que ela pede em troca”. A terapia online amplia o acesso, reduz barreiras práticas e tem se mostrado, para a maioria dos quadros e abordagens já estudados, tão efetiva quanto o formato tradicional. Ao mesmo tempo, ela exige adaptações concretas, de ambiente, de postura ética, de competência técnica, que não podem ser tratadas como detalhes secundários. A modalidade presencial, por sua vez, continua sendo especialmente relevante em situações de maior gravidade clínica e para pessoas que dependem do deslocamento físico como parte simbólica do próprio processo terapêutico. Entre essas duas possibilidades, o que existe não é uma hierarquia fixa, mas um leque de opções que só ganha sentido quando confrontado com a realidade concreta de quem busca ajuda.

Referências Bibliográficas

  1. Pieta, M. A. M., & Gomes, W. B. (2014). Psicoterapia pela Internet: viável ou inviável? Psicologia: Ciência e Profissão, 34(1), 18-31. Acesse aqui
  2. Sola, P. P. B., Oliveira-Cardoso, É. A. de, Santos, J. H. C. dos, & Santos, M. A. dos (2024). Psicoterapia online durante a fase inicial da pandemia de COVID-19: desafios e benefícios percebidos. Psicologia USP, 35, e230018. Acesse aqui

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Antônio Lançoni (CRP 12/13.360) e Sabrina Maria Schlindwein (CRP 12/05498). Somos psicólogos clínicos, responsáveis pelo Isto É Psicológico, um site dedicado à divulgação de conteúdos sobre Psicologia, saúde emocional e comportamento.

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