Terapia individual focada nas emoções: a importância de compreender o que sentimos

Muitas pessoas procuram psicoterapia porque sabem que estão sofrendo, mas não conseguem compreender exatamente o que acontece dentro delas. Sentem ansiedade, tristeza, irritação, vergonha ou vazio, repetem determinados comportamentos e, mesmo entendendo racionalmente que algo precisa mudar, continuam reagindo da mesma maneira. É nesse território que se situa a terapia individual focada nas emoções. Em vez de tratar as emoções apenas como sintomas que precisam ser controlados, essa abordagem procura compreender o que elas comunicam, como foram construídas e de que maneira podem ser transformadas. Pesquisas recentes têm ampliado o conhecimento sobre esse modelo, inclusive em estudos controlados com pessoas com depressão e ansiedade (Wiebe et al., 2025).

O que é a terapia individual focada nas emoções?

A terapia focada nas emoções parte de uma ideia aparentemente simples, mas clinicamente profunda: as emoções não são apenas reações que acontecem conosco. Elas participam da maneira como percebemos o mundo, compreendemos a nós mesmos, estabelecemos relações e tomamos decisões.

Na tradição desenvolvida por Leslie Greenberg, a emoção é entendida como um componente fundamental da organização do self. O objetivo da psicoterapia não é simplesmente fazer com que a pessoa sinta menos, mas ajudá-la a reconhecer, aceitar, compreender, regular e transformar experiências emocionais que se tornaram problemáticas (Greenberg, 2004; Greenberg, 2006).

Isso muda bastante a maneira de olhar para uma queixa psicológica.

Imagine uma pessoa que afirma: “Eu fico com raiva quando meu companheiro não responde às minhas mensagens”. Uma intervenção exclusivamente voltada para o comportamento poderia ensiná-la a controlar a reação. Uma abordagem focada nas emoções procura investigar o que existe dentro daquela raiva. Pode haver medo de abandono, sensação de rejeição, insegurança, vergonha ou uma necessidade profunda de reconhecimento.

A pergunta deixa de ser apenas “como faço para não sentir isso?” e passa a ser também “o que essa emoção está tentando me dizer?”.

É necessário, porém, fazer uma distinção. O termo “terapia focada nas emoções” pode designar modelos relacionados, mas não idênticos. A abordagem de Greenberg, frequentemente denominada Emotion-Focused Therapy (EFT), possui uma tradição humanista, experiencial e processual. Já a Emotionally Focused Individual Therapy (EFIT), associada a Susan Johnson, foi desenvolvida a partir da terapia focada nas emoções e da teoria do apego. O estudo recente de Wiebe et al. (2025), disponível no registro da APA/PsycINFO, investigou especificamente a EFIT individual.

Essa distinção é importante porque evidências obtidas em um modelo não devem ser automaticamente atribuídas ao outro.

Por que as emoções ocupam um lugar central na psicoterapia?

Em muitas situações, a pessoa percebe apenas a camada mais superficial de sua experiência emocional.

Alguém pode dizer “estou irritado”, quando, ao explorar cuidadosamente a experiência, percebe que está magoado. Outra pessoa pode dizer “não me importo mais”, quando existe uma tristeza profunda por trás da aparente indiferença. Há também quem transforme medo em controle, insegurança em ciúme ou vergonha em autocrítica.

As emoções, portanto, podem apresentar diferentes funções e níveis de organização.

Na perspectiva de Greenberg (2006), o trabalho psicoterapêutico pode envolver processos como consciência emocional, regulação, reflexão sobre o significado da experiência e transformação emocional. Não basta identificar uma emoção pelo nome. É necessário compreender sua função e descobrir se ela ainda é adequada à situação atual.

Considere alguém que cresceu ouvindo que demonstrar tristeza era sinal de fraqueza. Na vida adulta, essa pessoa pode aprender a interromper automaticamente qualquer experiência de vulnerabilidade. Talvez diga “está tudo bem” justamente quando não está. Com o tempo, pode tornar-se excessivamente racional, distante de suas necessidades e pouco capaz de pedir ajuda.

A psicoterapia pode criar uma experiência diferente: em um ambiente seguro, a pessoa começa a perceber aquilo que normalmente evita. A tristeza pode ser reconhecida. A necessidade de cuidado pode ganhar palavras. A raiva pode revelar uma sensação de injustiça. A vergonha pode ser compreendida sem que a pessoa precise se definir por ela.

Esse processo não significa simplesmente “colocar tudo para fora”. Expressar emoções intensamente não é, por si só, sinônimo de mudança terapêutica. O trabalho clínico envolve ajudar o paciente a experimentar a emoção de maneira suficientemente segura para compreendê-la e, quando necessário, transformá-la.

Greenberg (2004) descreve justamente essa lógica: primeiro é necessário chegar à experiência emocional antes de tentar afastar-se dela.

Como funciona uma terapia individual focada nas emoções?

A terapia não consiste em uma sequência rígida de perguntas sobre sentimentos. O terapeuta acompanha aquilo que acontece na sessão e identifica momentos nos quais determinadas emoções, conflitos ou padrões aparecem com maior intensidade.

Um paciente pode começar falando sobre uma discussão no trabalho. Enquanto relata o episódio, fica irritado. O terapeuta percebe uma mudança no tom de voz e pergunta sobre o que está acontecendo naquele momento. O paciente inicialmente responde que está apenas “contando a história”. Aos poucos, percebe que aquela situação despertou uma sensação antiga de ser desconsiderado.

Esse tipo de exploração pode levar a experiências emocionalmente significativas.

Na EFT, algumas intervenções experienciais procuram colocar em contato diferentes partes da experiência interna. Técnicas como o trabalho com cadeiras, por exemplo, podem ser utilizadas para explorar conflitos internos, autocrítica, necessidades não atendidas ou relações significativas. Estudos qualitativos mostram que muitos pacientes consideram esse trabalho experiencial e emocionalmente intenso útil, embora também possa ser difícil em determinados momentos (Marren et al., 2022).

O terapeuta, portanto, não procura simplesmente fazer o paciente falar mais sobre seus sentimentos. Ele ajuda a pessoa a permanecer em contato com a experiência emocional de maneira produtiva.

Isso exige bastante cuidado clínico. Uma emoção intensa pode ser esclarecedora, mas também pode ser desorganizadora. O terapeuta precisa avaliar o ritmo, os recursos de regulação e a capacidade do paciente de permanecer presente diante daquilo que está experimentando.

A relação terapêutica tem papel decisivo nesse processo. A meta-análise qualitativa de Marren et al. (2022), baseada em 11 estudos sobre a experiência dos pacientes, encontrou como aspectos frequentemente percebidos como úteis a conexão emocional, o apoio, a validação e a compreensão oferecidos pelo terapeuta.

Em outras palavras, não é apenas “o que” o paciente sente que importa. Importa também a experiência de poder sentir aquilo diante de alguém que não o julga nem o abandona.

O que as pesquisas mostram sobre sua eficácia?

A investigação científica sobre terapias focadas nas emoções vem crescendo, embora a quantidade e a qualidade das evidências ainda variem conforme o modelo, o problema clínico estudado e o desenho da pesquisa.

Um dos trabalhos mais relevantes para a terapia individual é o ensaio clínico randomizado de Wiebe et al. (2025). O estudo avaliou 88 adultos com diagnóstico de transtorno depressivo maior e ansiedade comórbida. Os participantes foram distribuídos entre 15 sessões de Emotionally Focused Individual Therapy (EFIT) ou uma condição de lista de espera. Os resultados indicaram redução significativa do sofrimento psicológico e dos sintomas de depressão e ansiedade no grupo submetido à EFIT.

Esse resultado é promissor, mas precisa ser interpretado com cautela. O estudo comparou a terapia com uma lista de espera, e não diretamente com outra psicoterapia ativa. Além disso, a amostra foi relativamente pequena e apresentou determinadas características sociodemográficas que limitam a generalização dos resultados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 examinou ensaios clínicos de terapias focadas nas emoções para diferentes formas de sofrimento psicológico em adultos. Foram encontrados 13 estudos, envolvendo 348 participantes que receberam EFT e 201 participantes em condições de comparação. A terapia apresentou efeito superior aos controles inativos, mas não demonstrou vantagem estatisticamente significativa sobre outras psicoterapias. Os próprios autores chamam atenção para problemas metodológicos, como amostras pequenas, dificuldades de randomização, perdas de participantes e possível viés de publicação (Whittington et al., 2026).

Esse tipo de resultado é particularmente importante para a divulgação psicológica responsável. Ele não permite dizer que a terapia focada nas emoções seja “a melhor” psicoterapia para depressão, ansiedade ou outros problemas. O que a literatura permite afirmar é algo mais cuidadoso: existem evidências de benefício, especialmente em determinados quadros, mas a pesquisa ainda está em desenvolvimento.

Uma revisão sistemática anterior, de Fülep et al. (2021), encontrou evidências favoráveis à eficácia da terapia focada nas emoções individual, particularmente para depressão, além de evidências preliminares para ansiedade social, trauma e transtornos alimentares. Os autores, entretanto, também classificaram parte dessas conclusões como preliminares.

Essa cautela não diminui o valor da abordagem. Pelo contrário. Uma psicoterapia amadurece cientificamente quando seus resultados são investigados, seus limites são reconhecidos e suas hipóteses podem ser modificadas diante das evidências.

Para quem esse tipo de terapia pode fazer sentido?

Uma terapia individual focada nas emoções pode ser particularmente interessante para pessoas que percebem uma distância entre aquilo que sabem racionalmente e aquilo que continuam sentindo.

É comum ouvir frases como: “Eu sei que meu relacionamento terminou, mas não consigo seguir em frente”; “sei que não deveria me importar tanto com a opinião dos outros, mas continuo sofrendo”; “sei que preciso colocar limites, mas na hora não consigo”; ou “entendo que minha infância ficou para trás, mas certas situações ainda me atingem como se estivessem acontecendo hoje”.

Nessas situações, simplesmente compreender intelectualmente o problema pode não ser suficiente.

A pessoa pode saber que não precisa agradar a todos e, ainda assim, sentir culpa quando diz não. Pode saber que uma crítica não significa rejeição e, mesmo assim, experimentar uma intensa sensação de inadequação. Pode compreender que determinada relação terminou, mas continuar emocionalmente presa à necessidade de reconhecimento daquela pessoa.

A terapia focada nas emoções procura trabalhar justamente essa diferença entre compreender algo com a razão e conseguir vivenciá-lo de outra maneira.

Greenberg (2010) descreve a importância de diferenciar processos emocionais e utilizar intervenções adequadas ao tipo de experiência apresentada pelo paciente.

Na EFIT, por sua vez, a teoria do apego ocupa um papel central. A proposta procura compreender como experiências relacionais e necessidades de segurança influenciam a organização emocional e os padrões interpessoais. O estudo de Wiebe et al. (2025) é especialmente relevante porque representa uma investigação experimental da aplicação individual desse modelo em depressão e ansiedade.

Isso não significa que a abordagem seja indicada para todas as pessoas ou todos os problemas. A escolha de uma psicoterapia deve considerar a avaliação clínica, as características do paciente, a natureza da demanda, a formação do profissional e as evidências disponíveis.

Também não se deve confundir profundidade emocional com eficácia. Uma sessão na qual alguém chora muito pode ser significativa, mas o choro, isoladamente, não demonstra que houve mudança terapêutica. O objetivo é que a experiência emocional possa tornar-se mais compreensível, regulável e adaptativa.

Conclusão

A terapia individual focada nas emoções parte de uma concepção diferente daquela que considera as emoções apenas como obstáculos ao pensamento racional. Medo, tristeza, raiva, vergonha e culpa podem carregar informações importantes sobre necessidades, experiências relacionais e formas aprendidas de lidar com a vida. O trabalho terapêutico procura aproximar a pessoa dessas experiências sem transformá-las em algo que precise simplesmente ser eliminado.

As pesquisas recentes, incluindo o ensaio clínico de Wiebe et al. (2025), oferecem resultados promissores para a aplicação individual, especialmente em depressão e ansiedade. Ao mesmo tempo, a literatura ainda apresenta limitações e não sustenta a ideia de que uma abordagem seja universalmente superior às demais. A psicoterapia continua sendo um processo de encontro, investigação e mudança. Em alguns casos, transformar a relação com uma emoção pode ser justamente o caminho para transformar a relação consigo mesmo.

Resumo

A terapia individual focada nas emoções compreende as emoções como elementos centrais da experiência humana e não apenas como sintomas a serem controlados. O processo terapêutico busca ampliar a consciência emocional, compreender necessidades e significados, desenvolver regulação e favorecer mudanças na experiência afetiva. Pesquisas recentes indicam resultados promissores, especialmente para depressão e ansiedade. Um ensaio clínico randomizado de Wiebe et al. (2025) encontrou redução significativa de sintomas após 15 sessões de terapia individual focada nas emoções. Apesar dos resultados favoráveis, as evidências ainda apresentam limitações metodológicas. A abordagem pode ser útil quando compreender racionalmente um problema não é suficiente para modificar padrões emocionais persistentes.

Referências bibliográficas

Fülep, M., Pilárik, Ľ., Novák, L., & Mikoška, P. (2021). The effectiveness of Emotion-Focused Therapy: A systematic review of experimental studies. Československá Psychologie, 65(5), 459–473.
Acesso ao artigo

Greenberg, L. S. (2004). Emotion-focused therapy. Clinical Psychology & Psychotherapy, 11(1), 3–16.
Acesso ao artigo

Greenberg, L. S. (2006). Emotion in psychotherapy: A practice-friendly research review. Journal of Clinical Psychology, 62(5), 611–630.
Acesso ao artigo

Greenberg, L. S. (2010). Emotion-Focused Therapy: A clinical synthesis. FOCUS, 8(1), 32–42.
Acesso ao artigo

Marren, C., Mikoška, P., O’Brien, S., & Timulak, L. (2022). A qualitative meta-analysis of the clients’ experiences of emotion-focused therapy. Clinical Psychology & Psychotherapy.
Acesso ao artigo

Wiebe, S. A., Johnson, S. M., Allan, R., Campbell, T. L., Greenman, P. S., Fairweather, D. R., Ismail, M., & Tasca, G. A. (2025). A randomized controlled trial of emotionally focused individual therapy (EFIT) for depression and anxiety. Psychotherapy, 62(3), 414–423.
Registro APA/PsycNet do artigo
Artigo e DOI 10.1037/pst0000586

Whittington, D. D., Jafari, M., & Borgogna, N. C. (2026). Emotion-focused therapy for distress-based psychopathology in adults: A systematic review and meta-analysis. Psychotherapy Research.
Acesso ao artigo

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Antônio Lançoni (CRP 12/13.360) e Sabrina Maria Schlindwein (CRP 12/05498). Somos psicólogos clínicos, responsáveis pelo Isto É Psicológico, um site dedicado à divulgação de conteúdos sobre Psicologia, saúde emocional e comportamento.

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